quinta-feira, 16 de julho de 2009

Gripe A

Pela importância da informação, mas sobretudo contra o alarmismo, transcrevo um artigo do Pedro Santos Guerreiro, editor do Jornal de Negócios, o qual subscrevo na íntegra.

Gripe Há, sempre houve

Antes da pandemia, a paranóia. O impacto da Gripe A é ainda minúsculo mas o alarmismo já é maiúsculo. O medo é o primeiro vírus em propagação, e contra o qual só há uma vacina: a informação. Tome-a já, todos os dias, nos sítios certos.

É tão errado subvalorizar a Gripe A quanto o é sobrevalorizá-la. Ela existe, está mundializada e a primeira centena de casos em Portugal foi mais lenta a chegar do que será a segunda, e ambas demorarão mais que o primeiro milhar. A Gripe A virá aos milhares com o vento de Outono e o frio de Inverno. Como todas as gripes.

A comunicação social é aqui determinante. Há noticiários que, pela gritaria, provocam corridas aos hospitais e esgotam farmácias numa ansiedade que faz pior à sociedade e - desculpem a frivolidade - à economia que a Gripe A.

Mal comparado, há menos de um ano passámos por uma ameaça de pânico que os jornais contiveram: a crise bancária.

Não é lição de jornalismo, e muito menos de moral, é um testemunho. No final do ano passado, o sistema financeiro quase colapsou e o medo escalou: levantamentos de grandes montantes, transferências para a Caixa, milhares de "emails" para as redacções: "O meu banco está bem? Meto no colchão? Fujo?". Esteve-se a um triz da hecatombe, uma corrida generalizada aos bancos. O que justificou, aliás, a nacionalização do BPN.

Os rumores de fragilidade de vários bancos (BPN, BPP, e não só) estavam em todas as redacções. Nenhum jornal fez manchetes com esses rumores nem se fez alarme com "o seu dinheiro está em risco". Mesmo sabendo que isso venderia jornais. E mesmo sabendo que acertaria sempre: naquela altura, a própria notícia provocaria o noticiado. O banco mais seguro do mundo não resistiria a uma corrida dos clientes, o que uma notícia dessas provocaria. Em contrapartida, esses jornais económicos fizeram milhares de perguntas e respostas, explicações, análises diárias. Venderam muito.

Pare, escute e olhe. Não só todas as pandemias dramatizadas nos últimos anos (incluindo Vacas Loucas e Aves) foram menos assassinas do que o noticiado, como, só da gripe sazonal, morreram no ano passado em Portugal cinco vezes mais do que a Gripe A já matou em todo o mundo.

Esqueça os "emails" que contam histórias juradas, mezinhas infalíveis e truques hediondos.

Faça o que as autoridades recomendam: hábitos de higiene preventivos, planeamentos familiares. Não se ponha a tomar Tamiflu só porque sim (pode ser pior!) nem desate a comprá-lo clandestinamente na Internet (o mais provável é comprar contrafacção). Em vez disso, compre uma reserva de antipiréticos, é como se tratam as gripes. E faça um cabaz mínimo de víveres para o caso de ter de se aquartelar em casa. Se lhe aparecer um febrão, ponha uma máscara, vá para casa e ligue para a Linha 24 ou vá ao Centro de Saúde.

Entre em alerta, não em pânico. Se pertencer a um grupo de risco (os que têm o sistema imunitário fragilizado, como portadores de doenças crónicas, crianças e grávidas - não necessariamente os idosos), então sim, não espere, vá para o hospital.

Se ficar engripado, não seja engrupido. A ministra da Saúde não anda a gerir expectativas numa crise económica. Acredite: ela é a sua melhor fonte de informação.


PS: Já agora: um amigo ou colega que teve gripe não é um bicho contagioso. Sete dias depois já não contagia ninguém e, quando curado, deve ser recebido, não estigmatizado ou repelido. Só um ignorante ostraciza um ex-doente de Gripe A.

Fonte: Jornal de Negócios

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